Na última parada de sua viagem pela Colômbia, o papa Francisco finalmente dedicou parte de seu discurso ontem para a crise na Venezuela e pediu que “todo tipo de violência na vida política” seja rechaçado. Desde o início da visita na semana passada do pontífice havia a expectativa de que ele abordasse a crise no país vizinho, principalmente por já ter ocorrido uma tentativa de negociação entre o governo de Nicolás Maduro e a oposição com a mediação do Vaticano.

“Quero assegurar minha oração a cada país da América Latina, de maneira especial pela vizinha Venezuela. Expresso minha aproximação a cada um dos filhos e filhas dessa amada nação, como também aos que encontraram em essa terra colombiana um lugar de acolhida”, disse Francisco ao final do Angelus – momento mais importante da visita para o catolicismo, relembrando o momento da Anunciação, feita pelo anjo Gabriel à Maria da concepção de Jesus.

Na quarta-feira passada, durante o voo para Bogotá, o papa deu sinais de que trataria diretamente da crise venezuelana, que tem levado uma imigração massiva para o território colombiano. Ele desejou que se “construa o diálogo” na Venezuela e o país “encontre uma boa estabilidade”. No entanto, o tema não voltou a aparecer nos eventos da visita.

O recado do papa neste domingo, 10, em Cartagena, ocorreu em um local com forte simbolismo: na frente da Igreja São Pedro Claver, padroeiro da Colômbia. Pouco antes, ele havia comentado sobre o jesuíta, chamado de o escravo de todos os africanos, que os recebia durante o século 17 no porto da cidade e os tentava proteger dos abusos e da exploração.

“Dessa cidade, sede dos direitos humanos, faço um chamamento para que se rechace todo tipo de violência na vida política e se encontre uma solução para a grave crise que se vive e afeta a todos, principalmente os mais podres e desfavorecidos da sociedade”, afirmou Francisco.

Na quinta-feira, cinco bispos venezuelanos se reuniram com o papa Francisco em Bogotá e informaram sobre o agravamento da crise na Venezuela. “O santo padre assegurou mais uma vez sua proximidade e bênção a todos os venezuelanos e pediu que (os bispos) continuassem com a atitude assumida de acompanhar o povo e defender seus direitos”, informaram os religiosos em um comunicado.

Durante o encontro, segundo o documento, também foram tratadas a implantação da Assembleia Constituinte na Venezuela e a “perseguição a dirigentes, ameaças a sacerdotes e religiosos e o fechamento de meios de comunicação”. “Esperamos bons frutos desse encontro”, acrescentaram.

 A chegada de venezuelanos à Colômbia aumentou desde o início da crise. Em 2017, 632.673 venezuelanos entraram no país vizinho com o cartão de mobilidade de fronteira, sendo que 56% deles cruzaram para comprar alimentos.

Em 30 de julho, dos 263.331 venezuelanos que entraram na Colômbia durante seis meses com o passaporte, ou seja, em um movimento migratório regular, 34.951 permaneciam no país. Com esse fluxo, a Migração Colômbia decidiu deixar em destaque em seu site avisos para os venezuelanos que desejam fazer o pedido de Permissão Especial de Permanência no país vizinho.

Segundo o taxista Santiago, em Bogotá já é visível o aumento de venezuelanos trabalhando na cidade. “Muitos são motoristas de táxis, atendentes em lojas e eu já percebi, por conta do sotaque, que alguns trabalham nos serviços de delivery que peço em casa”, disse.

Despedida – O papa surpreendeu e quebrou o protocolo mais uma vez ontem ao se despedir de Bogotá em seu papamóvel e não no carro fechado, como estava previsto pela sua segurança. Milhares de fiéis saíram às ruas para olhar de perto pela última vez o pontífice. Já em Cartagena, durante o percurso no papamóvel, Francisco bateu o rosto quando o veículo freou bruscamente e cortou o supercílio esquerdo.

Antes de ir para a Igreja São Pedro Claver, o papa visitou casas da obra Talitha Qum, programa dedicado à recuperação de crianças e jovens vítimas de exploração sexual e prostituição, e, na Praça São Francisco de Assis, um dos lugares mais pobres da cidade, benzeu uma pedra usada na construção de casas para moradores de rua.

Já na igreja, o papa lembrou de São Pedro Claver e condenou a marginalização de pobres e imigrantes. “Hoje na Colômbia e no mundo milhões de pessoas são vendidas como escravas, elas perderam sua dignidade e direitos. Lembro que elas, os imigrantes, os que sofrem a violência, todos têm dignidade e foram feitos à imagem de Deus”.

Na última missa campal, Francisco voltou a falar da paz na páis e pediu que os colombianos se esforcem para lutar contra a violência e o narcotráfico, “que a única coisa que faz é levar a mortes”. O pontífice lembrou o testemunho dado pelas vítimas em Villavicencio e disse que o perdão é essencial. “Nesses dias escutei muitos testemunhos, feridas abertas, mas essas vítimas deram o primeiro passo.”

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