/O Prêmio Jabuti celebra a poesia independente

O Prêmio Jabuti celebra a poesia independente

“cidade / em meio a tua carne / te rasgo / e penetro teu âmago / por entre veias / e ruelas”. O verso é do livro-poema “À Cidade”,  de Mailson Furtado, 26 anos, que em menos de um mês escreveu à mão a obra que dá forma às ruas de suas paixões e angústias, na cearense Varjota, e que lhe valeu o Prêmio Jabuti deste ano.

Pela primeira vez em 60 anos da história da premiação, os jurados escolheram como livro do ano uma publicação independente. O fato, que poderia ser apenas uma curiosidade estatística, com uma dose de reflexão transforma-se num sinal dos tempos. O mercado livreiro vive uma das suas mais profundas crises. As duas maiores livrarias do País, a Cultura e a Saraiva, enfrentam problemas financeiros, o que estende a penúria às editoras, grandes e pequenas.

No olho do furacão e no meio da caatinga, eis que surge como quem não quer nada Furtado, um artesão da palavra, do miolo até a capa. Um faz tudo que por absoluta necessidade e vocação publica seu livro autofinanciado.

O cearense desbancou representantes consagrados da literatura brasileira contemporânea, como a poeta Marília Garcia e o romancista Joca Reiners Terron, e colocou a publicação independente no foco de uma premiação afeita ao mainstream do setor.

A viagem

Furtado inspira e expira a vida e a graça de sua região, o Nordeste, mas principalmente o Ceará. Em 2015, saiu de viagem com seu grupo de teatro pelo sertão da Paraíba e de Pernambuco, pouco tempo depois de ler o “Romance da Pedra do Reino”, de Ariano Suassuna.

“Eu senti uma coisa muito legal que foi a sensação de conhecer aqueles lugares sem nunca ter ido lá. Fiquei muito tocado, e pensei que queria devolver o que livro tinha me dado, e fazer com que as pessoas sentissem a mesma coisa pela minha cidade”, conta o escritor.

No retorno a Varjota, Furtado passou a trabalhar intensamente nos poemas. Saía às ruas da cidade com seu caderno e deixava as palavras brotarem de cada canto de si e de seu lugar no mundo. Em 20 dias estava rascunhado o vencedor do Jabuti.

Por dois anos o escritor mostrou esse “rabisco” aos amigos, outros escritores, mas poucos lhe devolviam opiniões. Mandou então uma cópia para o professor e folclorista cearense Oswald Barroso, por quem é muito grato pelos “pitacos”.

“Meus poemas, geralmente, são curtinhos, mas esse era diferente, ele pedia pra ser contado.” Além do agora premiado, o escritor tem outros dois livros de poesia e um de contos. O quinto sai no próximo mês, e se chamará “Passeios pelas ruas de mim (e de outros)”.

Todos foram feitos manualmente, sem o apoio de editoras. Furtado escreve, diagrama, faz as ilustrações, revisa, banca a impressão e vende os livros. Para publicar o primeiro, feito ainda no tempo da faculdade de odontologia, pediu dinheiro emprestado para alguns amigos.

O trabalho como dentista lhe permitiu acumular alguns trocados para imprimir 300 cópias, ao custo de pouco mais de 3 mil reais. “Sou muito grato à odontologia. Ela que possibilita que eu seja escritor, ator, fazer o que eu amo.”

A cidade

Varjota, o eterno palco e fonte inspiração, é uma cidadezinha no noroeste do Ceará, com pouco mais de 18 mil habitantes. Sequer tem uma livraria, mas abriga um centro cultural do qual o poeta é produtor e onde fica a sede da companhia de teatro da qual é um dos fundadores. Lá também sempre esteve sua família, e “os amigos do bar”.

“Nunca quis sair daqui. Nunca passei mais de uma semana longe de Varjota. Fui para a premiação (do Jabuti) porque queria conhecer São Paulo. Eu não tinha a menor expectativa de ganhar.”

De São Paulo ficou a vastidão. “É uma cidade muito legal. Tem gente saindo de todo lado, de todo canto. É aquele lugar que cabe todo mundo.”

Em “À Cidade”, Furtado olha agudo para as angústias cotidianas de Varjota, que se mistura e se transforma a cada alarme soado pelo tempo.

O artista

O pai do multiartista-dentista é agricultor e a mãe, dona de casa. Ele é casado com Yane, tem um filho pequeno e duas irmãs. A família nunca teve muitos recursos, e na infância quase não tinham livros em casa.

Amigos não faltam. Furtado é conhecido nas redondezas pelos livros, pelo teatro de rua, grupos de literatura, feiras independentes. A relação dele com a cultura e com a cultura regional é umbilical. Começou a escrever na adolescência, influenciado pela música e pelo grupo de teatro que se formava na escola. O teatro é uma grande paixão do cearense, e é também o que o move.

Ainda que suas paixões estejam nas artes, a odontologia é um bem-querer. “Sempre pensei em fazer algo na área da saúde, e ai veio odontologia. Foi um jeito de ter estabilidade. Minha família sempre foi pobre, eu tinha que ter de onde tirar dinheiro.”

O prêmio

Ao receber a estatueta no palco do Auditório Ibirapuera, em São Paulo, em 8 de novembro, Furtado dedicou o prêmio aos autores que não encontram espaço em editoras para lançar suas obras e a “uma literatura que se faz sozinha”. Disse esperar que o reconhecimento abra as portas do mercado para escritores independentes como ele. “Esse prêmio abre uma janelinha para seguir adiante. O mercado precisa repensar a gente, ouvir mais. Estamos vivendo tempos tão difíceis, é preciso abrir mais os olhos, conversar mais.”

(Carta Capital)

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