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‘Instituições fracas, fake news em alta’, diz diretor do Ipsos

A cinco dias das eleições, com um debate radicalizado e as fake news se espalhando a torto e a direito, o diretor de Opinião Pública do Instituto Ipsos, Danilo Cersosimo ,chama a atenção, em conversa com a coluna, para três questões centrais do cenário eleitoral.

Primeira: os brasileiros acabam de “emplacar”, em recente pesquisa do instituto, como o povo que mais acredita em fake news no mundo – são 62%, seguidos de Arábia Saudita e Coreia do Sul ( 58%) e peruanos e espanhóis (57%).

Segunda: o clima eleitoral jogou o País num intenso processo de politização das falsas notícias. As fake news estão hoje, no Brasil, institucionalizadas.

Terceira: há um movimento duplo. As fake news são lidas e passadas à frente porque o cidadão não percebeu que era mentira… ou justamente porque percebeu e quer espalhar a má notícia para prejudicar um concorrente. “Instituições fracas criam o clima para fake news em alta”, conclui Cersosimo.

A pesquisa mundial da Ipsos, feita entre junho e julho, ouviu 19.243 pessoas em 27 países e revelou que 58% dos consultados se acham capazes de identificar as fake news. Apenas 28%, na média mundial, admitem que não o são. Os italianos são o povo mais desconfiado: só 29% admitem que já caíram nas falsas notícias. “A pesquisa mostra que houve uma redução da confiança nos políticos e um aumento no uso indevido dos fatos”, diz o Ipsos. As questões abordadas, no conjunto, incluem também temas como imigração e criminalidade.

A que o sr. atribui o fato de o Brasil ser o País que mais acredita em fake news, de 27 pesquisados?
De fato, aqui 62% admitem que já acreditaram numa fake news em algum momento. O curiosos é que chegam a 68% os que garantem saber a diferença entre falso e verdadeiro, no caso. O contexto brasileiro é muito favorável à disseminação de fake news devido à queda de confiança nas instituições. E chama a atenção, neste momento, que os próprios candidatos se habituaram a disseminar acusações contra seus opositores, sem se dar ao trabalho de checar se a denúncia é verdadeira. Mas há outro fator. As fake news são lidas e passadas adiante por quem não as percebeu como mentira e também pelos que perceberam. O que estes querem é queimar os concorrentes.

E na política há o componente emocional que leva o cidadão a fincar pé numa posição, mesmo que lhe provem que sua avaliação não é correta.
Sim, o sujeito, na política, muito frequentemente “escolhe” um lado e não o abandona mais. Há um sentido de identidade com o grupo, de autoestima. Não é qualquer um que admite que errou e muda de lado.

Quando o cidadão fala de fake news, do que ele fala exatamente?
Sobre a compreensão do termo fake news, a pesquisa identificou que 68% dos brasileiros declaram que são “histórias em que os fatos estão errados”. Uma segunda definição é que “são histórias em que os veículos de comunicação ou políticos só selecionam os fatos que sustentem seu lado do argumento”, adotada por 25% dos consultados. E numa terceira posição, com 18%, estão os que entendem que “é um termo que políticos e mídia usam para negar as notícias com as quais eles não concordam”.

É irônico o cidadão achar que ele sabe identificar uma notícia falsa e dizer que os outros não sabem, como revelou a pesquisa da Ipsos.
De fato. A propósito, há uma outra pesquisa, que vamos atualizar até dezembro, sobre Perigos da Percepção. Os números apontam que nossa população interpreta de modo equivocado alguns fatos da vida social. Por exemplo, os que se acham éticos e só criticam a corrupção nos outros. Isso vale também quando se fala de racismo, de refugiados, de criminalidade.

O que se poderia fazer para reduzir esse quadro?
Há nisso muito de manipulação de massas, e esta sempre existiu, pelo mundo afora. As fake news são apenas um dos modos atuais de fazer essa manipulação. Um caminho é o que a mídia já vem fazendo, que é criar ferramentas de checagem e divulgar suas conclusões com destaque. A outra saída, de muito longo prazo, chama-se educação. É preciso criar senso crítico entre os cidadãos, para que se defendam até pessoalmente.

Mas hoje as redes sociais atuam com enorme rapidez.
Sim, não é simples mudar isso. Seria ingênuo achar que vamos resolver esse problema de uma hora para outra./ Estadão

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